Em uma época em que obras de arte podem ser vistas em alta resolução por celulares, computadores e visitas virtuais, pesquisadores do King’s College London decidiram investigar se a experiência de contemplar uma obra original ainda oferece algo que as reproduções não conseguem reproduzir.
Os resultados sugerem que sim. Segundo a pesquisa do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência (IoPPN) do King’s College London, visitar uma galeria e observar obras originais pode gerar respostas fisiológicas mais positivas do que visualizar reproduções das mesmas imagens, seja no formato impresso ou digital. A pesquisa ainda não foi revisada por pares.
Como a pesquisa foi realizada
O estudo contou com a participação de 50 adultos entre 18 e 40 anos. Metade dos participantes visitou a Courtauld Gallery, em Londres, para observar obras originais de artistas como Vincent van Gogh, Édouard Manet, Paul Gauguin e Henri de Toulouse-Lautrec. O outro grupo observou reproduções das mesmas obras em um ambiente controlado.
Durante a experiência, os pesquisadores monitoraram a frequência cardíaca e a temperatura da pele dos participantes por meio de sensores não invasivos. Também foram coletadas amostras de saliva antes e depois da observação das obras para medir níveis de cortisol, conhecido como hormônio do estresse, e marcadores inflamatórios.

O que os pesquisadores descobriram
Os participantes que observaram as obras originais apresentaram uma redução média de cerca de 22% nos níveis de cortisol. No grupo que viu reproduções, a redução foi de aproximadamente 8%.
Os pesquisadores também identificaram diminuição de marcadores inflamatórios associados ao estresse, além de alterações na frequência cardíaca e na temperatura da pele. Segundo os autores, essas mudanças sugerem um estado de relaxamento combinado com maior envolvimento emocional durante a experiência artística presencial.
“Hormônios do estresse e marcadores inflamatórios como cortisol, IL-6 e TNF-alfa estão associados a uma ampla gama de problemas de saúde, desde doenças cardíacas e diabetes até ansiedade e depressão. O fato de a apreciação de obras de arte originais ter reduzido esses marcadores sugere que as experiências culturais podem desempenhar um papel real na proteção tanto da mente quanto do corpo.” afirmou o Dr. Tony Woods, primeiro autor do estudo e pesquisador do King’s College London.
O que isso significa na era digital
O estudo não diminui a importância das reproduções digitais, que continuam ampliando o acesso à cultura e permitindo que mais pessoas conheçam obras de diferentes partes do mundo.
Os resultados, porém, indicam que a experiência presencial oferece elementos difíceis de reproduzir por uma tela. Ver uma obra ao vivo envolve mais do que apreciar sua imagem: é perceber sua escala, suas texturas, as marcas deixadas pelo artista e a forma como ela ocupa o espaço. Somam-se a isso o ambiente do museu, o tempo dedicado à contemplação e a consciência de estar diante de um objeto original, fatores que podem tornar a experiência mais profunda e ajudar a explicar as diferenças observadas pelos pesquisadores.
Em um momento em que consumimos conteúdos de forma cada vez mais rápida, a pesquisa reforça que visitar museus e galerias continua sendo uma experiência relevante, capaz de gerar impactos que vão além da simples observação de uma imagem.
Fonte: The Physiological Impact of Viewing Original Artworks vs. Reprints: A Comparative Study (Courtney Worrell, Madeline Kirkpatrick, Camila Ribeiro Perez, Pierette Fortuna, Leyla Bumbra, Lucy Bradnock & Anthony J. Woods) – King’s College London Research Portal.