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Qual é o significado da coroa de três pontas de Jean-Michel Basquiat

Arte inspirada na coroa de Basquiat (foto meramente ilustrativa)

Se você já observou com atenção as obras de Jean-Michel Basquiat, é quase impossível não notar a presença recorrente de uma coroa de três pontas em algumas obras. Simples, quase infantil à primeira vista, esse símbolo atravessa pinturas, desenhos e grafismos do artista como uma marca constante. Ela surge sobre cabeças, nomes, corpos e palavras, sempre chamando o olhar do espectador.

Mais do que um detalhe visual, a coroa se tornou um dos elementos centrais da linguagem de Basquiat. Neste artigo, vamos descobrir como esse símbolo simples carrega diversas camadas de contexto e significado. Continue lendo para saber mais!

Como surgiu a coroa de Basquiat

Antes de conquistar galerias e museus, Basquiat começou sua trajetória artística como grafiteiro nas ruas de Nova York, no final dos anos 1970, assinando como SAMO. Nesse período, ele já utilizava símbolos diretos e impactantes, pensados para serem lidos rapidamente no espaço urbano. A coroa nasce nesse contexto, como parte de uma linguagem visual sintética e carregada de significado.

Quando migra do grafite para a pintura, o símbolo não desaparece. Pelo contrário, ganha força e passa a integrar telas maiores, dialogando com textos, figuras humanas, anatomias e referências históricas. Desde o início, não se trata de uma coroa tradicional. Ela é irregular, desenhada à mão, sem compromisso com perfeição ou nobreza clássica.

Pessoas caminhando em uma exposição com obras de Jean-Michal Basquiat no The Broad, na Grand Avenue em Los Angeles – Foto: Mike Von (Unsplash/Reprodução)

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Redefinindo realezas

Basquiat usava a coroa como um gesto de consagração. Em vez de reis europeus ou figuras religiosas, ele coroava atletas, músicos, lutadores e personagens negros frequentemente esquecidos pela história oficial. Muhammad Ali, Charlie Parker e Dizzy Gillespie aparecem como exemplos claros dessa escolha.

Ao colocar a coroa sobre essas figuras, o artista reposicionava quem merecia reconhecimento. Era uma afirmação direta de valor, talento e grandeza negra em um sistema artístico que historicamente privilegiou narrativas brancas. Não havia pedido de espaço. Havia ocupação.

A coroa como assinatura e afirmação pessoal

Além de coroar outros, Basquiat também se coroava. Em obras de autorretrato, ele aparece marcada pelo símbolo. Nesses casos, a coroa funciona como assinatura e declaração de existência. É um aviso visual de que aquele corpo e aquela história importam.

Longe de ser apenas vaidade, esse gesto reflete a tensão vivida pelo artista. Jovem, negro e inserido em um mercado elitizado, Basquiat afirmava sua presença como forma de proteção e resistência. A coroa era um escudo simbólico contra o apagamento.

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Três pontas e possíveis significados

A escolha pelas três pontas não parece aleatória. Alguns historiadores e fãs associam esse número a três campos que atravessam a obra de Basquiat: poesia, música e luta. O poeta aparece no uso intenso de palavras, listas e frases riscadas. O músico se manifesta na influência do jazz e do hip-hop, presentes no ritmo visual de suas composições. O lutador surge na recorrência de boxeadores e figuras de força física.

Nesse contexto, a coroa representa um ideal de realeza construído a partir de inteligência, criatividade e resistência, não de linhagem ou poder herdado.

Um instrumento de crítica cultural

Ao inserir coroas em suas obras, Basquiat subverte a tradição da pintura ocidental. Símbolos de poder, antes restritos a figuras sagradas ou aristocráticas, passam a ocupar corpos marginalizados. O artista questiona quem decide o que é digno de memória e reverência.

Essa escolha transforma a coroa em uma ferramenta crítica. Ela aponta para desigualdades raciais, culturais e históricas sem recorrer a discursos explícitos. O impacto está no gesto visual.

Mural do artista britânico Banksy com participação da icônica coroa de Basquiat (2023) – Foto: Matt Brown (Flickr/Reprodução)

Influência e permanência na cultura contemporânea

O símbolo criado por Basquiat ultrapassou o circuito das artes visuais e foi incorporado pela cultura hip-hop e por artistas contemporâneos. Referências diretas surgem em capas, clipes e performances de grandes nomes do rap e outros gêneros musicais, além de artes visuais e referências na cultura pop.

A conta oficial do catálogo de Jean-Michel Basquiat no Instagram também adota a coroa como imagem de perfil, preservando o desenho como um logo ou símbolo visual permanente e imediatamente associado ao legado do artista.

A ideia central permanece a mesma: se o reconhecimento não vem de fora, ele pode ser afirmado a partir de dentro.

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Principais obras com a coroa de Basquiat

A coroa aparece de forma marcante em obras centrais de Jean-Michel Basquiat, como Charles the First (1983), em que o artista homenageia o saxofonista Charlie Parker; Pez Dispenser (1984), uma de suas imagens mais conhecidas, que mostra um dinossauro coroado e associa cultura pop, consumo e desigualdade social; e Untitled (Crown) (1982), na qual a coroa de três pontas surge desenhada em linhas fortes sobre uma colagem de papéis, textos e esboços.

Conclusão

A coroa de três pontas de Jean-Michel Basquiat está longe de ser só um ornamento decorativo. Ela funciona como assinatura, manifesto, crítica e afirmação identitária. Ao longo de sua obra, o símbolo reafirma a importância de narrativas excluídas e questiona estruturas de poder consolidadas.

A coroa propõe uma revisão de quem pode ser rei. E, nesse gesto, Basquiat deixa um legado visual que segue provocando reflexões muito além das paredes dos museus.

Fonte: Guy Hepner | Sothebys Institute

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