20 August, 2019

25 anos de “Da Lama ao Caos” e a identidade gráfica do mangue

Com o surgimento do movimento Manguebeat em meados de 1991, o Brasil veio a conhecer bandas como Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio e Banda Eddie que conseguiram levar a música de Pernambuco ao topo, de maneira única e peculiar.

A cena do mangue trazia ao público uma nova forma de se relacionar com a arte nordestina, misturando sons elétricos e eletrônicos com a batida forte do maracatu e dos ritmos pernambucanos, em temáticas que nasciam nas críticas sociais e passeavam pelas inovações tecnológicas que surgiam na época, como uma forma de ficção científica das periferias de Recife.

Obviamente, isso tudo não poderia ficar só na música. Com o surgimento das bandas e ideias, aparece também um estúdio de design chamado Dolores e Morales, idealizado pelos artistas Hilton Lacerda e Helder Aragão (Dj Dolores), que passou a desenvolver materiais gráficos para esses artistas, criando assim, uma linha visual que dava também uma identidade plástica ao movimento Manguebeat.

Na época, haviam poucos recursos tecnológicos para a criação de projetos gráficos, os processos eram bastante analógicos e rudimentares. Em paralelo a isso, a cena cresceu bem longe do famigerado eixo Rio – São Paulo, onde tudo de mais inovador estava acontecendo.

Mesmo com todas as dificuldades de acesso ao mainstream brasileiro, Chico Science e Nação Zumbi começaram a se destacar na cena musical e em abril de 1994, lançaram o seu primeiro álbum, o Da lama ao caos, produzido por Liminha, lançado pela Sony Music e considerado por muitos como o manifesto da Manguebeat.

Porém, mesmo fazendo parte do cast de uma grande gravadora brasileira, não abriram mão de recorrer ao Dolores e Morales para a criação da capa desse que futuramente seria considerado um dos 100 melhores discos da música brasileira pela revista Rolling Stone, além de apresentar o mangue para o mundo. O resultado você já conhece:

Capa do disco “Da lama ao Caos”, de Chico Science e Nação Zumbi (Sony Music)

A capa do disco é uma colagem abstrata, colorida e repleta de retículas estouradas, mas olhando bem, é possível perceber a figura de um caranguejo, que é o símbolo do movimento Manguebeat. A imagem do animal desfigurado, como se sofresse algum tipo de interferência, deveria passar uma ideia de tecnologia e contemporaneidade.

A arte foi construída a partir de uma sobreposição de colagens que misturava recortes de fotocópias reticuladas e uma fotografia matriz produzida pelo fotógrafo pernambucano Fred Jordão. As últimas edições eram feitas em softwares de edição de imagens.

“A banda queria misturar metal com hip hop. Já a Sony, pediu uma capa colorida. O complicado foi equilibrar as duas coisas. Mas utilizamos o conceito de tecnologia, que era o que passava o disco. Então, descontruímos o caranguejo, usando software de computação gráfica, algo bem raro na época” contou Dolores ao Diário de Pernambuco em 2014.

Fotografia original da capa do disco “Da lama ao Caos” – Créditos: Fred Jordão

Por meio desse álbum, edificou-se o movimento, que além de estar entre os mais relevantes da música brasileira, conseguiu transmitir a verdadeira essência das periferias da capital pernambucana no início dos anos 1990, somada a revolução tecnológica que vinha chegando.

O estúdio Dolores e Morales produziu ainda uma infinidade de capas para discos, além de videoclipes e outros projetos criativos para bandas da cena recifense, como Mundo Livre S/A e Mestre Ambrósio. A partir disso, se formou aquilo que é conhecido hoje como a identidade visual do movimento.

“Dolores e Morales: Essa dupla tinha vontade de criar. O Tempo todo!. Aliás, Hilton e Hélder são muito contemporâneos. Geniais. Eles merecem muito tudo o que a vida está lhes dando. Sou fã incondicional dos dois”, afirmou Otto, ex-percussionista da Mundo Livre S/A e cantor em entrevista ao Diário de Pernambuco em 2013.

Atualmente, Hilton Lacerda trabalha como cineasta e Helder Aragão continuou trabalhando com música como Dj Dolores e em outros projetos musicais. Vira e mexe, se encontram para trabalhar juntos em projetos como o filme Tatuagem (2013) e a série Lamas dos Dias (2018).

Em 2017, o Canal Brasil lançou um mini documentário de pouco mais de 3 minutos, onde os designers Hilton Lacerda e Helder Aragão falam sobre o projeto gráfico do disco e como tudo foi pensado na época. Confira:

O podcast brasileiro Diagrama também publicou uma entrevista com Helder Aragão em 2018, falando sobre a criação da capa, em um bate-papo rápido e bem mais voltado ao público criativo. Vale a pena conferir:

Veja também: As 10 capas mais loucas de discos brasileiros dos anos 1970

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